O espetáculo A República em Laguna é a encenação de um fato histórico, ocorrido na litorânea cidade catarinense de Santo Antonio dos Anjos da Laguna, hoje, infelizmente, com o nome simplificado para Laguna, apenas.
A meu ver, com o enfoque equivocado.
Em Julho de 1839 os revolucionários Farrapos proclamaram, em Laguna, a República Juliana.
Davi Canabarro e outros, entre eles Giuseppe Garibaldi, anunciaram a independência do estado catarinense, sediando na cidade de Anita a nova república.
Em meio aos acontecimentos o exilado comandante italiano conheceu e se apaixonou por uma nativa conhecida por Aninha do Bentão.
A história de amor dos dois sobreviveu a derrota farroupilha e ainda a mais duas guerras.
Aninha tornou-se Anita Garibladi, heroína de dois mundos (ou três).
E há alguns anos estes fatos vêm sendo narrados por uma mistura de teatro, música e vídeo às margens da Lagoa de Santo Antonio.
Este ano o ator Tiago Lacerda foi contrado para interpretar o galante Garibaldi e, por conta disto, o povo lá de casa, motivado pela admiração que minha mãe nutre pelo "talento" do moço, foi, finalmente, assistir ao show.
Valeu a pena.
O ator global é realmente lindo. Carismático.
Mas o que me incomoda é o fato de sua beleza enfraquecer a relevância de uma acontecimento histórico da magnitude da tomada de Laguna.
Grande parte dos espectadores pagou ingresso e se espremeu naquela arquibancada maldita apenas para ver o galã.
Além disso, a história de amor interpretada por Tiago Lacerda e sua esposa, que descreve o caminho traçado pela aventureira Anita até sua morte na Itália também é linda.
Mas, novamente, o que me incomoda é que tal relacionamento suplante aquilo que deveria ser o mais importante para o povo de Laguna.
A República em Laguna é o verdadeiro acontecimento espetacular de tudo isto.
Anita Garibaldi, Giuseppe e Tiago Lacerda deveriam ser meros coadjuvantes de uma história que tem como protagonista a coragem de um povo a frente de seu tempo.
Que Laguna se orgulhe de receber um ator global é aceitável, afinal, é algo que não acontece todo dia.
Que se orgulhe de ser o berço (controverso) de uma guerreira que conquistou fama em outro continente é compreensível.
Mas que não se esqueça que aqueles que perderam a vida por seus ideais e alçaram o nome da cidade a um posto de destaque na história nacional devem ser a verdadeira razão de orgulho, acima de qualquer romance ou rosto bonito.
04/08/2008
A República em Laguna, Anita Garibaldi e Tiago Lacerda
09/07/2008
Tsuru
Tsuru é um origami.
Um pássaro feito através de dobradura.
Segundo a lenda japonesa, o pássaro vive 1.000 anos e se você fizer 1.000 pássaros mentalizando um desejo, ele se realizará.
Atualmente o Tsuru também é considerado um símbolo da paz.
A relação do pássaro com a paz começou depois da explosão da Bomba de Hiroxima.
As pessoas que se encontravam próximas ao local de explosão da Bomba morreram imediatamente, incineradas.
Porém, aquelas pessoas que estavam há alguns quilômetros de distância, a princípio não manifestaram nenhum sofrimento, mas foram contaminadas pela radiação e com o passar do tempo os sintomas começaram a aparecer.
Uma destas pessoas era a menina Sadako Sasaki, que na época da explosão tinha apenas 2 anos de idade. Aos 12 anos a doença de Sadako começou a se manifestar e ela foi hospitalizada, descobrindo que sofria de leucemia.
A menina, que conhecia a lenda das 1.000 dobraduras, passou os últimos dias de vida confeccionando os 1.000 Tsurus.
Infelizmente Sadako morreu, mas seus coleguinhas de escola, sensibilizados pela resignação da amiga, resolveram iniciar uma campanha para arrecadar fundos para a construção de um monumento em homenagem às vítimas da Bomba Atômica.
Conseguiram mobilizar mais de 3.000 escolas no Japão e 9 em outros países.
O dinheiro arrecadado foi suficiente para a construção do monumento que fica no Parque da Paz e é conhecido como "Monumento das Crianças pela Paz".
Tradicionalmente pessoas do mundo todo visitam o monumento e penduram ao seu redor vários Tsurus.
A inscrição "Este é o nosso grito. Esta é a nossa Prece. Construir a Paz no Mundo que é nosso" lembra a todos os visitantes que mais do que um ponto turístico aquele é um local de conscientização.
E eu, apesar de cultivar há muito tempo o hábito de dobrar qualquer pedacinho de papel até se transformar neste delicado pássaro que bate as asas, apenas agora entendi a história de dor e esperança que sustenta as dobras do papel.
Quanto a lenda, talvez alguns desejos não se realizem nem depois dos 1.000 Tsurus, mas acredito que qualquer coisa que seja elaborada com a mente voltada a um pensamento positivo produz energia positiva, coisa que nos dias de hoje (na verdade, em qualquer tempo) é sempre bem vinda.
08/07/2008
Deus e o Diabo
A pequena Ana me perguntou ontem, na hora do almoço,entre uma garfada e outra, quem é Deus?
Tranquilamente conclui o caminho do garfo, o levei até a boca, mastiguei a comida, engoli e, tentando ser o mais natural possível, respondi.
- Bom, depende. Depende da religião que se tem.
- Como assim?
- Cada religião vê Deus de um jeito. Cada um vê como quer.
- ?
- Para alguns, Deus é a natureza.
- Então Deus é aquela árvore?
- É. Pode ser. Mais ou menos. É quem fez aquela árvore.
- Quem fez o rio também?
- É.
- Ah! Entendi. Deus é quem faz as coisas da natureza.
- Para algumas pessoas, sim.
- Então tu também és Deus, mamãe. Por que tu me fizeste.
- ~~~~! Sou. Acho que sou.
E experimenta dizer que eu não sou.
Todas as mães são Deusas.
Geram vida.
Todos os pais que se empenham na tarefa de ser pai são Deuses.
Geram um ambiente propício ao desenvolvimento de um ser.
Todas as esposas, namoradas, amantes são Deusas.
Geram uma história de amor.
Todos os professores conscientes de seu papel de educar são Deuses.
Geram a busca pelo saber.
Todas as cabeleireiras e manicures são Deusas.
Geram beleza. O que é fudamental.
Enfim. Cada um é Deus em seu universo.
E o Diabo é pegar uma coisa tão simples como esta e complicar.
07/07/2008
A bondade que escraviza
Tenho pena dos bonzinhos!
Ser bonzinho é f...
Me assusta a facilidade com que algumas pessoas abrem mão de seus próprios interesses simplesmente para satisfazer a vontade alheia.
Não que você não possa fazer algo que não seja em benefício próprio.
Pode. E deve.
Mas somente quando não interferir, ou melhor, prejudicar o bom andamento da sua vida.
É louvável ajudar os outros.
Mas tenha sempre em mente que por mais que faça, nunca será suficiente.
Doar-se é um ato contínuo, incessante, que exige cada vez mais dedicação daquele que se propõe a desempenhá-lo.
O bonzinho é, acima de tudo, um incansável.
Não adianta nada fazer o melhor durante uma vida toda e depois negar algo uma única vez.
Vai tudo para o ralo.
A bondade é um sacerdócio que deve ser abraçado até o último dos dias, em todos os momentos, em qualquer situação.
Aqueles que recebem escravizam o bonzinho de forma que ele sempre esteja preparado para servir.
Existem verdadeiros profissionais na arte de explorar um bonzinho.
São vampiros que não se esforçam em buscar o próprio sucesso e estão sempre a caça de desculpas para o fracasso que vivenciam.
Têm no bonzinho a vítima perfeita.
Sugam o coitado durante anos a fio e, quando a exploração fica evidente e não podem mais continuar, inventam uma desculpa qualquer, normalmente com o pedido humilde de algo humanamente impossível mas que, ao ser negado, é o pretexto perfeito para afastar-se da vítima alegando falta de sensibilidade e compaixão.
Uma piada!
Nem preciso dizer que não tenho nada de boazinha, né.
Mas, quer saber, vivo feliz assim, longe dos sugadores e oportunistas.
23/06/2008
Hera x Aracnea
Aranhas!
Se alguém tentar imaginar a cena, não vai conseguir.
Escrevi a maldita palavra ali de cima (a primeira deste texto) com os dedos contorcidos e agora me esforço para olhar a tela do computador e conferir a grafia correta da infeliz, mas no meio do caminho o olho trava sem conseguir alcançar o destinho final.
Meu Deus! É só uma palavra, vocês devem pensar.
Só uma palavra o caramba!
É um bicho pavoroso, com várias patas (não importa quantas) que se forem grossinhas então (encorpadinhas), piora tudo.
Segundo a mitologia grega, Aracnea era uma bela tecelã com habilidade impressionante.
Tal facilidade para a arte de tecer chegou aos ouvidos da deusa Hera (patrona das tecelãs) que, enciumada pela fama da moça, desafiou-a.
Hera propôs uma competição a Aracnea afim de concluir qual das duas realizaria o trabalho mais qualificado.
Após dias tecendo sem parar, Hera, ao perceber que a rival não manisfestava sinal de cansaço, pôs fim à empreitada e ordenou que juízes decidissem a quem pertencia a trama mais bem feita.
Qual não foi sua surpresa diante da afirmação de que o trançado da mortal era impecável. O mais perfeito visto até então.
A esposa de Zeus, num misto de inveja, vergonha e indignação, amaldiçoou a pobre Aracnea a passar o resto da eternidade tecendo. Dia após dia. Teia após teia.
Seus descendentes são os aracnídeos e a história, apesar de interessante, não diminui em nada o pânico que eu tenho detes monstrinhos.
Pronto! Os dedos já estão se contorcendo novamente.
Acho que narrei o mito grego apenas para poder escrever sobre minha maior fobia sem ter que pensar muito nela.
Ta bom! Foi uma fuga.
Quem achar que não valeu, que se manifeste.
Ah! Só para concluir, essa fobia não é minha não, tá. É daquela minha amiga. Aquela do namorado.
Não sou eu quem tem medo disso aí não. Eu nem ligo.
20/06/2008
Dias melhores virão
Escrever é um ato de se entregar.
Expor seus pensamentos, sejam eles superficiais ou altamente reveladores.
Em momentos de profunda inspiração as palavras surgem quase que de forma espontânea, acomodam-se ao texto com naturalidade.
Porém, em momentos mais conturbados, as idéias não são tão claras e, às vezes, até se escondem dando a impressão de que nada existe para se dizer.
A experiência deste blog tem sido enriquecedora e gratificante.
Ser forçada a escrever todo dia, brincar de extrair graça dos fatos cotidianos, levar a mente a trabalhar coisas simples transformando-as em entretenimento para os amigos, receber diariamente o carinho destes, tocar a razão e a emoção até de gente desconhecida e, além de tantas outras coisas, descobrir que, apesar de ter passado um tempo com as idéias entorpecidas, ainda penso, são motivos para me deliciar com este espaço.
As pessoas que frequentam o blog são importantes para mim e por elas (vocês) tenho imenso respeito.
Desculpem por frustrá-los durante toda esta semana.
Prometo que semana que vem eu volto.
14/06/2008
Viajando
Minha filha de 7 anos tem MSN.
Me pediu para fazer um Orkut também.
Mas este eu não permiti.
A vantagem do MSN é que ele não expõe. Só tem acesso quem é aceito. Se bem que o Orkut já tem dado alguns passos significativos nesta direção.
Mas, mesmo assim, ainda não considero apropriado para a idade dela.
Só que este não é o ponto que eu quero levantar.
Ao vê-la teclando em frente ao computador, conversando com amigos e familiares, fui levada a refletir sobre a mobilidade da língua portuguesa.
Mais do que nunca, entendi porque dizemos que é uma "língua viva".
Acontece comigo (e muito provavelmente com você) o fato de confundir a escrita formal com a linguagem que usamos na internet.
Em uma conversa virtual as letras dão lugar a agilidade e tudo acaba sendo abreviado. Somem os acentos e a pronúncia passa a ser muito mais valorizada que a gramática.
As regras dão lugar àquilo que realmente importa: a transmissão da mensagem.
Acontece que as horas que eu dedico a este tipo de diálogo interferem no meu desempenho gramatical extra MSN. Se o internetês não chega a prejudicar meu português é devido ao cuidado redobrado e à revisão contínua daquilo que escrevo.
Mas eu tenho 30 anos (muito bem conservados, diga-se de passagem) e apenas nos últimos destes passei a ter um contato frequente com este tipo de mídia enquanto que a Língua de Camões me tem sido ensinada desde as primeiras palavras.
A grafia correta de grande parte do nosso vocabulário já está impressa em minha memória há muito tempo. Se a substituo, quando posso, pela forma difundida entre os internautas é apenas por uma questão de comodidade.
Eu bem sei o correto.
Mas e estas crianças de 7 anos?
Aprendem de manhã conforme o tio Aurélio e depois, antes mesmo que possam absorver a lição, desaprendem com todos da sua lista de amigos.
O que me intriga nesta situação é imaginar como os pequenos lidarão com isto.
Será que conseguirão distinguir as situações e aplicar as palavras da maneira tradicional?
Ou transformarão a Língua Portuguesa com rapidez surpreendente?
Talvez propiciem uma alteração drástica que, sem a comunicação on line, naturalmente levaria centenas de anos para se concretizar.
Será que esta nova forma de comunicação afetará outras campos de nossa vida?
Cristo!
Fico pensando em tudo isso e tenho vontade de proibir que a minha filha use o MSN. E de pedir à professora que envie às outras mães um comunicado solicitando que façam o mesmo.
Besteira isso.
Então melhor não pensar.



